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O batismo de Jesus e o chamado à conversão representam o início do eschaton, que se caracteriza pelo dom do Espírito sobre o povo de Deus como chamamento universal. Neste particular, a efusão do Espírito em o Novo Testamento distingue-se em parte da manifestação da Ruah sobre eventos e pessoas no Antigo Testamento.

O Espírito de Deus se manifestava vez por outra em pessoas particulares com missões específicas na aliança anterior enquanto na presente Ele se exprime sobre a comunidade e nela habita. Assim, Jesus ao ser batizado é designado e consagrado como aquele cuja palavra, sacrifício e ação faz com que o Espírito entre na história como dom escatológico e messiânico.

A comunicação/missão do Espírito sobre Jesus o constituiu primeiramente como “santo”, e depois como “Filho de Deus”. A segunda é feita no batismo para testificar que Cristo é aquele sobre o qual o Espírito agirá e o responsável para enviá-lo após sua ascensão gloriosa. A vida e ministério de Jesus foram permeados pela ação do Espírito. Jesus ofereceu-se pelo Espírito eterno para que em um só Espírito fosse formado um só corpo, a Igreja. Portanto, é paradigma e meio de discernimento da ação do Espírito no homem e na comunidade cristã.

No Epistolário Paulino

O Espírito é apresentado em conexão com a ação salvífica de Jesus e com a promessa ligada à fé de Abraão (Gl 3.14). O Espírito age por meio da pregação e suscita a fé. Ele é concedido à comunidade como herança e garantia escatológica até que se tome posse da libertação final. O mesmo Espírito que fez da humanidade de Jesus uma humanidade completa, faz da comunidade, apesar de suas mazelas e fraquezas, filhos e herdeiros de Deus, mediante o qual podemos dizer “Abbá, Pai” (Rm 8.14-17).

Nesta comunidade o amor, como fruto do Espírito, é o princípio gerador, é o todo. O Espírito não apenas opera no povo de Deus, mas também no crente, sem profanar a interioridade e a liberdade de cada pessoa. Todavia, sua ação no fiel e na comunidade cria a relacionalidade, tornando possível um “nós”. Ele não age apenas “em nós”, inspirando cada um particularmente, mas principal e fundamentalmente, “entre nós”, explicitando o amor.

É o “entre nós” que cria a oportunidade e a relacionalidade e, somente assim, é possível dizer de modo pertinente que o Espírito está tralhando na comunidade. Antes de o Espírito ser dado à comunidade, as pessoas tinham uma relação amorosa e pessoal com Jesus, entretanto, não possuíam um projeto comunitário antes do evento pascal e do pentecostes. Com a presença do Espírito na comunidade houve uma passagem do individual para o coletivo, do “eu” para o “nós”, de um projeto pessoal para um plano coletivo.

Entre as muitas novidades que o Espírito traz está sua ação sobre a comunidade, onde todos são partícipes do agir do Pneuma. Essa experiência é distinta da veterotestamentária onde a comunidade era apenas expectadora da ação da Ruah de Javé sobre indivíduos específicos em ações pontuais. Eles concebiam a Ruah como uma força, energia, enquanto o Novo Testamento o apresenta como uma Pessoa. Nisto se percebe toda a relevância e atualidade da profecia de Joel que vaticina a Ruah de Javé sobre toda a carne.

Portanto, os carismas do Espírito são dados agora, de acordo com Paulo, a toda comunidade para a edificação da própria igreja. Lembre-se, por conseguinte, que Paulo fora o primeiro a trabalhar a Pneumagiologia, embora não tivesse uma experiência concreta e pessoal com Jesus de Nazaré. A experiência paulina é pneumatológica, toda permeada pelo Espírito. Portanto, todos devem agir por meio da ação do Espírito que ensina o crente a falar, a orar, a caminhar, a discernir os espíritos; é Ele quem edifica e consola a comunidade. Toda práxis cristã genuína está permeada do Espírito.

Paulo, por sua vez, afirma estas verdades às comunidades em formação, que ainda não estavam devidamente organizadas e cientes desse temário pneumatológico. O crente ou a comunidade pode e até deve ter um projeto, mas sem a participação do Espírito é ineficaz (Rm 8). A unidade que o Espírito cria na comunidade pode ser entendida também à luz da “crise da Galileia” e das idiossincrasias dos Doze. Ainda hoje, o Espírito toma pessoas distintas em suas formações e experiências e as une em torno de um projeto salvífico comum e comunitário na igreja.

Nos Atos dos Apóstolos

Lucas apresenta o Espírito como aquele que irá gerar a Igreja no mundo. Ele impulsionou Jesus em seu ministério terreno e nos Atos anima os apóstolos para anunciarem o Evangelho, de Jerusalém até os confins da terra. Ele é o princípio dinâmico por detrás das ações miraculosas e da escolha dos itinerários dos missionários. Por meio do Pentecostes o Espírito trouxe aos apóstolos o discernimento da universalidade do chamado à fé. Apesar de Lucas não ter uma teologia dos efeitos do fruto do Espírito na vida do cristão, Paulo a tem e, assim, a pneutmatologia de Paulo, Lucas e João se completam.

No Evangelho de João

O Espírito Santo é apresentado inicialmente em sua relação com Jesus. Este tem o Espírito e o concede. Ele diz e faz a obra de Deus através do Espírito. Na comunidade, o Paraclito ajuda a superar o trauma da morte de Cristo. Ele ensina a segui-lo em vez de a um corpo de doutrina.

As perspectivas lucana, joanina e paulina se articulam. Pentecostes não é somente a festa do Espírito Santo, mas do Jesus histórico e da comunidade. A experiência de Jesus na comunidade foi de amor. O amor que o Espírito transmite é um amor comunitário, em vez de articulação individual. A vida do Espírito é uma vida comunitária, muito embora haja a ação dele na vida de indivíduos. O Espírito traz novidade para o seguimento de Jesus, no passado e no presente. O Espírito traz um “nós”. O Espírito fala em “nós” e entre “nós”.

Artigo de Esdras Costa Bentho publicado originalmente no site da CPAD. Esdras é Teólogo, Bacharel e Licenciado em Teologia com especialização em Hermenêutica; graduado em Pedagogia (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Formação de Professores), e escritor. Atualmente concluindo o Mestrado em Teologia pela PUC, RJ, atua como professor na Faecad, RJ, trabalha como editor de Bíblias e revisor sênior para editoras cristãs. É autor dos livros “A Família no Antigo Testamento – História e Sociologia” e “Hermenêutica Fácil e Descomplicada”, e co-autor de “Davi: As vitórias e derrotas de um homem de Deus”, todos títulos da CPAD.

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